quinta-feira, 17 de abril de 2014
Em um momento de descrição
Na parede há um buraco branco, o espelho. É uma ratoeira. Sei que vou lá cair. Já está. A coisa cinzenta acaba de surgir no espelho. Aproximo-me e olho para ela; já não posso desviar-me.
É o reflexo da minha cara. Muitas vezes, nestes dias, perdidos, fico a contemplá-lo. Não percebo nada desta cara. As dos outros têm um sentido. A minha, não. Nem posso decidir se é bonita ou feia. Acho que é feia, porque mo disseram. Mas não é propriedade que me salte à vista. A bem dizer, até me surpreende' que se lhe possam atribuir qualidades desse género, como se se chamasse bonito ou feio a um bocado de terra ou a um bloco de rocha.
Há, todavia, uma coisa cuja vista dá prazer; por cima das regiões moles das faces, acima da testa: é esta bela labareda vermelha que me doura o crânio, são os meus cabelos. Isto sim, é agradável de se ver. É, pelo menos, uma cor nítida: estou contente por ser ruivo. Ali está ela, no espelho, salta aos olhos, irradia fogo. Muita sorte tenho eu: se a minha testa suportasse uma dessas cabeleiras sem brilho que não chegam a decidir-se entre castanho e louro, a minha expressão perder-se-ia no vago, dar-me-ia vertigens. O meu olhar desce lentamente, com enfado, por esta testa, por estas faces: não encontra nada de firme, afoga-se. Evidentemente, aquilo é um nariz, aquilo são uns olhos, aquilo uma boca, mas nada disso tem sentido, nem sequer expressão humana. (A Náusea - Sartre)
terça-feira, 8 de abril de 2014
2014 e abril mês do meu nascimento
Não sei mais do que eu preciso, do que eu quero, tô num nervosismo fora de controle, com vontade de sair pela primeira porta que aparecer.
2014 que esperava começar com muita lucidez parece estar se transformando em um inferno astral pra mim.
É muita ansiedade, medo e nervosismo junto, misturado em uma pessoa só.
Por favor pare.
Mas ao mesmo tempo sei que isso vai passar e eu vou ler isso com um alívio enorme.
Só espero não morrer antes de sentir esse alívio.
Quero voltar para a vida sem preocupações.
2014 que esperava começar com muita lucidez parece estar se transformando em um inferno astral pra mim.
É muita ansiedade, medo e nervosismo junto, misturado em uma pessoa só.
Por favor pare.
Mas ao mesmo tempo sei que isso vai passar e eu vou ler isso com um alívio enorme.
Só espero não morrer antes de sentir esse alívio.
Quero voltar para a vida sem preocupações.
segunda-feira, 17 de março de 2014
Estou mundo
De tempos em tempos é bom voltar para esse blog preenchido de memórias, só assim pra lembrar de algumas coisas e suspirar com tanta coisa estranha dessa vida.
Mas hoje por enquanto só quero guardar aqui momento bons, momentos que me façam bem e que me faça crescer como ser humano.
Quero sentir o mundo em sua forma completa, com luz e com sabedoria, com amor e compartilhamentos. Sentir-me inteira sem meus medos me rodeando. Sentir-me bem como sou e como serei no futuro.
Daqui pra frente quero só crescer e crescer até tornar a forma deformável.
Mas hoje por enquanto só quero guardar aqui momento bons, momentos que me façam bem e que me faça crescer como ser humano.
Quero sentir o mundo em sua forma completa, com luz e com sabedoria, com amor e compartilhamentos. Sentir-me inteira sem meus medos me rodeando. Sentir-me bem como sou e como serei no futuro.
Daqui pra frente quero só crescer e crescer até tornar a forma deformável.
quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014
eus
Vivem em nós inúmeros;
Se penso ou sinto, ignoro
Quem é que pensa ou sente.
Sou somente o lugar
Onde se sente ou pensa.
Tenho mais almas que uma.
Há mais eus do que eu mesmo.
Existo todavia
Indiferente a todos.
Faço-os calar: eu falo.
Os impulsos cruzados
Do que sinto ou não sinto
Disputam em quem sou.
Ignoro-os. Nada ditam
A quem me sei: eu ’screvo.
Ricardo Reis vulgo Fernando Pessoa.
Se penso ou sinto, ignoro
Quem é que pensa ou sente.
Sou somente o lugar
Onde se sente ou pensa.
Tenho mais almas que uma.
Há mais eus do que eu mesmo.
Existo todavia
Indiferente a todos.
Faço-os calar: eu falo.
Os impulsos cruzados
Do que sinto ou não sinto
Disputam em quem sou.
Ignoro-os. Nada ditam
A quem me sei: eu ’screvo.
Ricardo Reis vulgo Fernando Pessoa.
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