quinta-feira, 17 de junho de 2010

aquela

Nunca sei como iniciar um texto, mas esse é diferente. Começa com uma fotografia. É uma moça, boa aparência, lábios finos, olhos grandes e castanhos, cabelos negros, simetria do rosto quase perfeita, um largo sorriso, dentes bonitos, saudáveis. Gosto de pessoas saudáveis.
Passava das seis horas da manha quando acordei, ainda com os olhos cansados do dia anterior. Ao lado da cama o toca-discos, uma coleção velha e gasta, apenas com os clássicos. Prefiro deixar à frente The times they are a-changin do Dylan, de preferência coloco a faixa numero 4, lado A, depende do meu humor, hoje foi a faixa 4. Vez ou outra é Presley e até um Zeppelin, mas na maioria das vezes é Dylan. Fui ao banheiro, escovei os dentes e tomei banho, dia comum, a mesma rotina.
Coloco o casaco verde musgo, herança de meu falecido avô, o único que teve a decência de me dar uma educação, mesmo que mal dada. Saio. A claridade arde em meus olhos, sempre que sinto esta sensação penso em comprar um par de óculos escuros, mas me deixa com a feição do Maverick, o que não faz muito meu estilo. Fui ao 'Café da esquina', nome próprio do café que fica na esquina de onde moro, sem criatividade, com aquelas pessoas de aparência horrível, quase tão horrível quanto a minha. Dou uma olhada no local, sento no balcão e peço um café, preto, sem açúcar, como água suja, que é o que me mantêm.
Todo dia a mesma coisa, mesmo papo com o dono da cafeteria. “Será que chove?” “Viu o jogo ontem?” E futilidades sobre o cotidiano. Tomo o café, pago e dou tchau. Ao levantar esbarro em um homem, engravatado, boa pinta, meia-idade, desses que deve trabalhar em uma grande empresa, casado, família perfeita, mas que dorme com a secretária. Ele pede desculpas e sai. Não fui com a cara do sujeito. Noto que algo caiu de seu bolso, pensei em chamá-lo, mas o cara já havia saído. Deparo-me com a tal fotografia, acho que perdi uns dois minutos admirando-a.
Não acredito em destino, deus e nem em amor, mas sei que tudo ocorreu por algum motivo. Fui trabalhar sem ligar muito para o ocorrido, fiz tudo que meu plano de rotina exige de mim, mas apenas ao chegar em casa me lembro da moça, admirei-a antes de dormir, com um certa inveja de sua felicidade e beleza; dormi.
            O dia começa de novo, mas diferente, agora a moça vivia em meu bolso, ela me traz certo alívio que não sei explicar. Nesse dia algo me fez mudar de ares. Levantei, lado B, faixa 4, não fui tomar café, tomei um suco em uma lanchonete a umas duas quadras da cafeteria, me arrependi, pois sem café meu dia fica mais cansado do que já sou.
            Viro a esquina e me deparo com um sorriso, fico imóvel, é a tal moça dos cabelos negros, a única que me tirou o sono por alguns míseros minutos. Decidi não ir trabalhar hoje. A segui, não pensei duas vezes, eu a via de costas, seu cabelo ao vento, seu corpo e seu movimento, tudo me encantava. Sentia-me como uma pessoa completamente apaixonada... não, admirada.

            Tentei chamá-la, mas as palavras não saiam de minha boca, o máximo que fiz foi olhá-la. Ela me fazia esquecer do mundo, dos problemas, do trabalho, das pessoas, das crenças, do meu cansaço e do meu vazio, e assim ela se foi, cada vez mais longe dos meus olhos e eu apenas sabia admirá-la. Ela foi. A fotografia ficou.